ventos do leste
a despeito da reprodução quase literal do título do filme, este texto tem pouco a ver com a obra cinematográfica do grupo dziga vertov; nada, na verdade, a não ser a pouco discreta apreciação do que vem do leste. também não contamos aqui com glauber no papel de exu da encruzilhada, nem há caminhos presse vento, nem há pressa: com calma sambudista esperamos o vendaval, que vem sempre aos poucos, trazido por indicação, e de milho em milho o HD fica cheio de música romena, húngara, turca ou grega. pois é deste leste balcânico que se trata, e deste vento: os que trazem lotes e pacotes de mp3 preciosos, difíceis.
e o leste nos chega de muitas maneiras -- e de muitos lestes separados. este texto curto, que só tem a ambição de divulgar, vai tratar das várias formas e origens dessas músicas, fornecendo instrumentos para os interessados em dispor do vento, e refrescar os ouvidos.
goran bregovic e beirut
um, absolutamente "ocidental", soando como bucareste; o outro, todo "do leste", mas euro-americano pra caramba. goran bregovic e beirut, de maneiras diferentes, situam-se em lugares parecidos no meio da música. os dois servem e se servem de um certo estereótipo para uma noção de "música tradicional do leste" e a inventam, reinventam, triinventam; apesar de eventuais percalços e mal entendidos (bregovic foi trilha para o filme borat, por exemplo), o resultado da salada é ótimo: o beirut, filho do texas, acrescenta à sua saudade da bucareste nunca visitada um tempero folk, um molhinho indie, navegando o adriático a partir de uma cartografia inteiramente pessoal e inventada. com dois discos lançados e uma tatuagem de um trompete no pulso, zach condon, idealizador e principal músico-compositor-multinstrimentista da banda, canta e toca como um exilado húngaro em paris, extremamente melancólico e saudoso.
já bregovic é do róque. depois da sua banda tosca no fim dos anos setenta (bijelo dugme, com a qual fez enorme sucesso), goran resgatou o seu trabalho com sons mais tradicionais, refazendo, pela música, a unidade que seu país, a antiga iugoslávia, ia perdendo. começou uma fértil interlocução com o cineasta (e também músico) emir kusturica, seu conterrâneo, e aí deslanchou numa fatia de mercado que os anos 90 primeiro-mundistas definiram como world music, dentro da qual cabia tanto a sua obra quanto a violeira helena meireles. as trilhas para os filmes de kusturica (principalmente a de underground) corroboraram a força da mistura ensandecida do rock com tradição cigana, que nos deu belos neotangos (Underground Tango), uma amostra de uma orquestra-de-metais-punk (Kalasnjikov), e cesária évora cantando um semi-fado saudoso e resignado, ausência. contudo, bregovic não parou aí: com 57 anos, dirige uma orquestra muito particular de 40 membros, com a qual se apresenta de terno branco, sentadinho, com uma guitarra a tiracolo.
emir kusturica & the no smoking orchestra
por um caminho parecido segue emir kusturica. se servindo às vezes de sonoridades bastante tradicionais, kusturica age musical e cinematograficamente como se olhasse para a História e achasse tudo muito absurdo. a espiral felliniana (a quem kusturica, aliás, se refere como um anjo) da guerra que se vê em underground é exemplar do que se pode esperar da música da sua orquestra não fumante: uma tradição espalhada, mal entendida, misturada, confusa, engraçada, surreal, impessoal, surtada; a História para ele parece um leggo, a ser montado ou colado ao bel prazer de quem toca, e uma rumba ligeira passa pelo trompete cigano, sempre rápido, enquanto kusturica não solta a guitarra.
a romênia e o jazz: johnny raducanu
johnny raducanu é o mr jazz da romênia. nascido em uma longa família de músicos, aos 19 anos começou com o baixo acústico, mas escolheu o piano, para se diferenciar da tradição familiar, que remonta ao século XVII. tem muitas conexões com o jazz americano: é membro honorário da Louis Armstrong Academy, e em seu disco com Teodora Enache, gravado ao vivo em San Francisco, registrou sua versão para Don't get around much anymore, standard de Duke Ellington. suas opções musicais o aproximam muito do jazz clássico norte-americano, mas quando ele escorrega pros lados da música tradicional ou pro experimentalismo, a coisa toda fica muito interessante.
fanfare ciocarlia
eles se dizem a orquestra mais rápida do mundo; se não são, estão no top 5. vinda do leste do leste, a aldeia zece prajini, na romênia, a fanfare ciocarlia é formada por 12 músicos, e mistura tradições balcânicas com o que der na telha: têm versão para born to be wild, também na trilha do borat, tocam tango com a desenvoltura de quem bebe água, e no seu quinto disco, queens and kings, lançado em 2007, aprofunda as ligações com os repertórios musicais de outros países dos balcãs, assim como com outras tradições ciganas, como a francesa.
esta enlouquecida orquestra de metais e percussão derivada da tradição das bandas militares turcas e austríacas do início do século XIX não usa partitura nem deixa a peteca cair: exercita a ética do entusiasmo com vigor e desafia o fôlego de quem se habilita a seguir o ritmo, sempre impecável, sempre pra fente.
gogol bordelo
banda novaiorquina formada por um ucraniano, dois russos, um etiópio, um israelense, uma chinesa, uma tailandesa-americana, um equatoriano e um americano da flórida que toca bateria, o gogol bordelo é algo colorido, engraçado, barulhento e rápido. se definem como punks ciganos, e isso é verdade e é um grande deboche, como aliás todo o resto. eugene hütz, showman e líder do grupo, mistura john galliano com john galliano, muita vodca e todas as tradições musicais que soem estranhas o suficiente para ficar bem juntas. o resultado não é nada tradicional, bastante punk e muito divertido.
gabriel bogossian
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