a condição dos objetos [um comentário sobre o humano em svankmajer]
a bioarquitetura, a tecnomoda e o sambudismo são, por muito que pareçam o contrário, instâncias de uma mesma prática: a possibilidade de, pelos buracos e remendos da linguagem, dar conta de mais precisão no uso de conceitos – mesmo que na maior parte das vezes a meta dessa operação seja só o prazer lúdico de colocar a armadura do he-man no corpo da barbie. avaliamos onde um termo encaixa no outro, onde as práticas convergem, e criamos mais um belo neologismo pro natal. e é justamente assim que opera o não pouco ilustre animador do leste, jan svankmajer: tendo encontrado a linguagem [a que lhe interessa] num estado confortável de acabamento e tendo acumulado muitas tralhas no sótão, tratou de se posicionar frente a esses dois eventos.
e juntou as duas pontas. melhor: se postou no sótão, avaliando quantos eram os buracos da aparência de acabamento da linguagem escolhida. com a licença de ponge, tomou o partido das coisas, antropomorfizou o que pôde e instalou um sujeito no meio dessa confusão. como animador, começou a misturar diversas técnicas [as de animação com algumas do teatro de formas animadas], vários tipos de objeto [seus filmes são completamente entulhados, mesmo os que têm pouca coisa, pois as texturas e as cores parecem sempre aquelas pessoas muito velhas que adensam o ambiente só pelo ar que respiram] e, eventualmente, um ser humano ou outro. o seu fausto tem excepcionalmente mais de uma figura humana, mas além do protagonista nenhuma é expressiva – pois o mundo de svankmajer parece já entulhado demais, cheio demais para comportar, além de tudo, humanos (como se ele dissesse do quanto perdemos em espaço, por obra do nosso engenho pouco criterioso – mas de alguma forma também o quanto ganhamos em analogias e espelhos por meio das coisas que inventamos).
cabe retornar então à bioarquitetura e à tecnomoda: os cenários que ambos os neologismos sugerem são precisamente o mundo dentro do qual svankmajer trabalha. suas imagens, e por conseguinte os protagonistas humanos dos seus dois grandes longas [o fausto e alice, baseado em carroll], são parte de um universo no qual o humano é um anexo, um apêndice de objetos que, como esponjas, absorveram o miasma da presença do homem no mundo e já podem agir [sempre em conformidade com suas limitações de objetos] e interagir com os poucos homo sapiens que sobraram (o coelho branco do alice é um excelente exemplo: sendo um coelho empalhado que se descola da sua base, tem a barriga mal costurada, da qual cai a serragem que é seu enchimento, o que o obriga a recomê-la sempre, como se estivesse sob o risco de murchar. a própria alice traz, ao variar entre menina e boneca, ora a marca do objeto que se impregna de humano, ora a má situação do sujeito entre objetos animados).
assim é o mundo que esse senhor nos oferece: entulhado de coisas que absorveram anos da presença do homem nos espaços, onde os poucos indivíduos de carne, sangue e linfa têm apêndices de garrafas e marionetes como sua metafísica, e são eles próprios baterias que recarregam o potencial humanóide de um garfo, ou que dão a uma gaveta a chance de ter pulsões e desejos. os homens, nesse mundo, são definidos primordialmente pelas conchas de tranqueiras que carregam [a sua metafísica representada por marionetes], como casa e carcaça, e estão sujeitos às simpatias de uma porta sua e de um pijama seu, que convivem com o tempo e com suas precariedades muito melhor que eles mesmos.
há, portanto, alguma zombaria em svankmajer; a vida das coisas prescinde, para ser animada, da vida dos inventores das coisas; o moto-contínuo que o engenho humano ativou só precisa de uma brisa de empurrão para continuar seu movimento; as questões éticas e metafísicas de que fausto é marionete são propostas por marionetes desengonçadas; alice, que desobedece as normas do país das maravilhas, é transformada em boneca. com essa maneira de costurar o mundo, construindo imagens que são [opostas às que meramente representam], svankmajer opera poeticamente – e a relação com ponge é de novo pertinente, pois o neologismo pongiano definidor do seu próprio procedimento, "um objogo", aplica-se também ao animador. assim como o francês, svankmajer dispensa tudo menos a linguagem, e é só ela que poupa o homem de sumir entre as inutilidades que acumula.
gabriel bogossian
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