VISCONTI VELÁZQUEZ VIVALDI



joão moreira salles e o onanismo do obtuso

como observou eduardo valente (no que não prima pela perspicácia, visto a força das obviedades do caso), o filme santiago, dirigido por joão moreira salles, deveria se chamar joão moreira salles. este artigo, com este nome, põe mais pingos nos i's, e chove no molhado, pelo enorme prazer em rir dos exercícios fraudulentos de cinema que nos fazem sempre perder tempo e, principalmente, paciência, no aconchego cada vez maior da sala escura.

perder tempo: porque a singela reflexão empreendida pelo cineasta sobre a construção da memória no cinema não vale um níquel. ao expor e comentar os dispositivos toscos de que tentou se servir em seu primeiro projeto de filme, joão salles não vai mais longe que qualquer bom faroeste de john ford, esse prenomônimo americano do diretor carioca; não vai mais longe, aliás, fica aquém de um simples o nascimento de uma nação, ou de os mil olhos do dr mabuse. nos dois casos, as reflexões sobre memória, verdade e representação ensejadas pelos filmes fazem do potencial dialógico-reflexivo de santiago uma piada. admite-se que joão salles tenha descoberto agora a força falsificadora da câmera, da composição de quadros, o fato de estar num mundo composto por discursos e por isso sujeito aos desvãos da linguagem; mas é patético ver um adulto, este homem, culto, hoje, se impressionar com a suposição, exposta no seu filme, que seus bons sentimentos, a respeito do material captado e do seu personagem, que a sua sinceridade, está também encenada, podem trazer comoção, lirismo, àquele sentado na sala escura, o espectador.

espectador que joão salles coloca como voyeur involuntário das suas digressões mnemônicas. ao utilizar santiago, o homem, como espelho que reflete seu passado, o diretor constrange quem assiste seu filme a acompanhar a reconstrução de uma suposta nobreza familiar (a dos salles), o reencontro com imagens da infância e dos afetos que só diz respeito a ele mesmo; com isso, não deixa nada a dever a menino de engenho, o clássico do exercício memorialista de uma elite decadente que não sabe o que fazer do seu tempo, e se põe a contar histórias.

joão salles, inclusive, tem mais ligações com josé lins do rego do que se pode supor à primeira vista. assim como o escritor paraibano, o ilustre filho do ex-embaixador walther moreira salles reza pela cartilha de gilberto freyre e ignora qualquer possibilidade de política, qualquer atrito decorrente de uma desregulada relação entre classes sociais. cinicamente, em seu filme, comenta en passant que o seu personagem, santiago, durante as filmagens, não deixara por um momento de ser o mordomo, e ele, diretor, o filho do dono da casa. cinicamente também joão salles finge querer ouvir a velha totonha do seu "palacete" da gávea, mas só se interessa pelas histórias que dizem respeito a si mesmo, registrando com a eficiente fotografia de walter carvalho todos os momentos do seu onanismo narrativo, sempre incompleto, sempre pré-orgástico na sua incapacidade de desdobrar e aprofundar um tema, seja com dispositivos cinematográficos, seja com o texto agregado ao filme.

e perder paciência: "joãozinho", então, anda em círculos; descobre a roda da representação, descobre que é muito fácil que os personagens sejam seus autores em vez deles mesmos, descobre que seu cinema não basta, não bastou, pra lidar com seus afetos e sua memória. e, pela boca de santiago, o homem (esse primor de estilização da existência, figura profundamente viscontiana obcecado pelo estudo de linhagens aristocráticas do mundo inteiro), tenta se descobrir nobre (porque aquele que fala da sua infância, joãozinho, e da sua família, é o mesmo que sabe de trás pra frente a história da nobreza mundial, dos sobrenomes ilustres, é o mesmo sujeito que anotou, como você mesmo viu, ao longo de muitas mil páginas, cada detalhe da vida de um borgia, e que com seu filme tenta fazer o mesmo a respeito da sua própria família), tenta resgatar um anedotário familiar, de relevância discutível, para coisa alguma. joão salles usa santiago, o homem, como títere da sua memória, por perceber que o lugar do mordomo, fora da cena e ao mesmo tempo acompanhando-a sem parar, é o único que permite um plano geral sobre os eventos, e que por isso talvez possa conferir à narrativa alguma unidade, a mesma que preguiçosamente o diretor não se cobra.

joão então, decadente como um ex-nobre milanês, é, diferente deste, um enrustido: não coloca ninguém passeando pelos grandes salões do seu "palacete", não admira diretamente o fausto que sua excepcional bem aventurança econômica permitiu, embora use santiago para fazê-lo; ao contrário do milanês, joão salles tenta enfiar proust na boca do seu personagem, quando é ele mesmo que não sabe o que fazer da sua arte (porque santiago, pela sua vida, já completou admiravelmente sua obra), com sua memória, e nem assume sua própria voz no filme: sob pretexto de uma maior familiaridade, quem narra em off as seqüência é fernando moreira salles, irmão do cineasta. santiago, o filme covarde, quando enfim termina, faz como onan, e goza no chão, sem fecundar nada, sem aproveitar nada, sempre temeroso, sempre gaguejando pobremente, apolítico, desconexo, surdo, hesitando ao redor de um personagem de fato fascinante, desperdiçado por uma intenção e uma audição mesquinhas, que não se interessa de verdade e se compraz na rememoração do nobre passado, ora se comparando à aristocracia européia, ora à hollywoodiana (que santiago, como morin, observou serem compostas da mesma matéria), e morre na praia, numa cadeira, sentado, sem o vigor e a beleza da infância, enquanto o calor derrete sua maquiagem.

gabriel bogossian