SALÒ DANTE DOLCE&GABBANA CREPAX



biscoitos amanteigados giacomo puccini

este texto é breve e tem um único propósito: fazer ligeiro elogio da versão de herbert von karajan de 1974 para a ópera de giacomo puccini, madama butterfly. posto este simples intróito, ao que interessa.

1.

a karajan não interessa a verdade – não importa se mozart sugere mais limpeza ou contenção, pois ele simplesmente não vai atendê-lo –; ele cavalga e atira, e a partitura da madama permite e incentiva justamente a dramaticidade potente que esta imagem sugere.

2.

a madama incentiva isso, claro, mas é fácil: sem a complexidade trágica de wagner, puccini é um beletrista, na definição de ezra pound: é conveniente, hábil, oportunista. um pouco como delacroix, representa o século XIX no que este tem de mais frívolo. sua grande vantagem é estar ligeiramente deslocado, no tempo; seu mundo acaba com a eclosão da primeira guerra, e ele vive até 1924. sua relativa seriedade verdiana na escolha remotamente política de alguns temas soa torta, e por isso mesmo a grandiosidade (ou grandiloqüência) é mais interessante, já que o desnível coloca sua obra como uma extensa reflexão sobre a arte do artifício.

3.

e karajan se beneficia de todos esses aspectos para elaborar sua própria teoria do artifício. não menos grandiloqüente, talvez com um pouco mais de propriedade na avaliação do seu próprio valor, ele junta intérpretes brilhantes e midiáticos com uma orquestra excelente (assim como na sua versão de 54), arrumando assim o cenário ideal para seu pensamento em larga escala. como um chef, pede mais e mais manteiga, e deixa mais saboroso o prato pucciniano (ainda que a custo da saúde do comensal). cavalga, atira, e faz da historieta de Butterfly, ingênua demais, a potência musical que nos impede de dispensá-la como algo não crível; ao realçar suas cores, karajan trabalha em prol da música de puccini concordando com ela e expandindo febrilmente seus limites, suas possibilidades. diferente da interpretação de sinopoli, mais educada, o maestro austríaco sabe falar alto e desrespeitar o que for necessário para fazer da cavalgada de Butterfly algo que dê vontade de comer, e que se come sem parar. karajan, como chef esperto, potencializa a receita original (tanto nas suas precariedades quanto nas suas potências) e nos serve um prato quente, saboroso e amanteigado – uma delícia.

gabriel bogossian