CORTES TUNGA NÊGADOCABELODURO



as perucas e o poder (uma ironia)

pra bianca, que deu a dica

as perucas

os cabelos são parte do código. e como tudo que faz parte do código (ou d'O Código, que não fica atrás de nenhum Segredo), têm um outro código próprio, sempre sincronizado com O Grande Código, sempre trabalhando em prol dele, ao seu lado, nas suas brechas. os egípcios ricos ou poderosos, como se sabe, usavam perucas sobre as cabeças raspadas, e o subcódigo das perucas, trabalhava dentro d'O Grande Código social, azeitando-o, empurrando-o e embelezando-o. ao longo de alguns séculos movidos pelo mal gosto, na europa os grandes ricos, monarcas, sábios e que tais ostentavam também volumosos adornos de cabeça, que não deixam pra trás nenhum destaque de escola de samba (basta ver as fotografias de época de voltaire ou goethe). claro está que no caso dos sábios o adorno se aplicava aos que transitavam nas cortes ou tinham alguma ligação mais forte com O Código (não se tem, por exemplo, registro de erasmo usando peruca). além disso, como também é de conhecimento geral, o cabelo era atributo dos fortes – e o caso de sansão, neste sentido, é exemplar. é notório também o caso foucault, o sujeito que pensava (e questionava) as entranhas dos códigos (mirando sempre n'O Grande Código que as embutia): ostensivamente careca, perigosamente careca: seu cocoruto exposto era, além de muitas outras coisas, uma grande provocação acintosa ao poderoso mundo das perucas. (e antes que passemos a outra parte do texto, não é tarde lembrar o caso de hendrix que, além de todas as outras demonstrações de poder, exibia, ululante, o seu black power dentro e fora do palco, como afirmação, questionamento e deleite).

o poder

como qualquer um sabe, a economia, este Grande Sistema (sistema-mundo, como sugere wallerstein), e os arranjos econômicos (empregos, empréstimos, investimentos) dependem, para caminhar, de muitas senhas. uma herança, um contato, um padrinho, uma peruca: são muitas as senhas possíveis e permitidas nos sistemas e subsistemas por onde o dinheiro e o trabalho circulam (estes geralmente em proporções inversas). as senhas da corte, voltando ao exemplo de antes [ou uma das senhas para se alcançar um respeito equivalente ao da corte, como no caso de sábios menos poderosos mas igualmente encabelados (kant, por exemplo), quando O Código, depois de sugar do Sistema benefícios cênicos, desliga-se dele, renovado e turbinado, e anda por si só], passavam, portanto, também pelas perucas, às vezes se enovelando em seus fios e nas intrigas inevitáveis. o dinheiro (o poder prático, baseado em qualquer instância – sacerdócio, terras, livros ou contatos) e a peruca (o poder cênico) se misturaram sempre para criar no seio mais elevado do Sistema e do Código a operação perfeita, a simbiose ideal entre o fato e sua representação, entre a operação prática do poder e o volume da cabeleira. por este breve retrospecto instantâneo, como uma sopa que se mistura preguiçosamente à água quente, constatamos, entre códigos e sistemas, essa vinculação reta, firme como os caracóis dos cabelos armados de volutas e ouro.

e hoje, os engravatados bem pagos e mal vestidos de são paulo, quando os têm, passeiam por aí impunes com seus cabelos empapados de gel.

gabriel bogossian