três frames de guido
1.a. guido crepax (pronuncia-se güido), quadrinista tarado, milanês formado em arquitetura, nasceu em 1933; morreu em 2003, aos 70 anos. como buñuel, rejeitava a psicanálise, e tinha um excelente senso de enquadramento, um excelente senso de corte. e um péssimo senso narrativo. como buñuel, tentou ser seu próprio herói, e deu zebra: neutron, o personagem alter ego de crepax, logo perdeu espaço pra valentina, sua namorada. depois que desistiu dele começou a apostar nela, suas histórias ganharam forte senso erótico, sempre em enredos estapafúrdios; é consenso entre seus admiradores, um consenso ligeiramente incômodo, que suas narrativas não primam pela coesão ou pela eficácia – tomando em boa parte das vezes as direções da ficção científica como maneira de abrandar as suas fraquezas. valentina, sua heroína mor, a qual foi muito mais fiel do que se poderia esperar de alguém com a mente tão lúbrica, passava por todos esses espaços improváveis que a narrativa frouxa abria – na maior parte das vezes, nua. por isso tudo, são melhores suas grandes adaptações, como a de sade (adaptou também emmanuelle e a história d’o, menos boas), onde, claro, prevaleceram também (é óbvio, basta ver a lista de livros adaptados) os corpos nus e as mulheres em risco.
1.b. alain resnais: “seguidamente, é necessário tomar uma página de crepax e ler várias vezes para captar certos detalhes.”
maurizio fagiolo dell’arco: “crepax começa por redesenhar (...) a planta da página dupla que aparece aos nossos olhos, faz transposições da linguagem fotográfica, cita com nonchalance os “clássicos” do gênero (krazy kat, dick tracy...), inclui imagens da pintura e da arquitetura, altera as estruturas do quadrinho (...) até decretar a síntese na página, que se torna acumulação (coito) de strips.”
2. anita é de 74. loura, foi inspirada por anita ekberg. a história respeita o padrão de improbabilidade que era marca das suas narrativas originais, mas, talvez por ser mais breve, permite menos devaneios a crepax – o que sem dúvida favorece o leitor. anita é a solteira e liberada secretária de um “doutor” que a obriga a fazer hora extra; sai com motoqueiros e junkies andróginos, e nas horas vagas vê tv. são muitas horas vagas; anita vê tv ininterruptamente. no sofá, na cozinha, na banheira. nua, várias vezes. e a tv e a nudez perturbam anita. ela se contorce, se masturba, goza vulcanicamente inspirada pelos eflúvios dos raios catódicos, e, como um videodrome avant la lettre, submerge no mundo televisivo, estabelecendo uma ligação hipersexual delirante com o aparelho de tv e com o ser, todo só mãos e braços [masculinos] que sai dele.
como no filme de cronemberg e como seria de se esperar em se tratando de crepax, os elementos visuais que indicam um aparente prosaísmo rapidamente submergem no delírio da personagem, e daí em diante é esta a dimensão narrativa que importa – as experiências do delírio prevalecem em intensidade e interesse, e a própria história passa a ser contada a partir disso (em anita, todas as seqüências fora da relação com a tv mostram um mundo desprezível e ameaçador; em videodrome, as seqüências da “realidade” são sempre em menor quantidade, traduzindo o vício e o poder monopolizador da experiência televisiva como instaurador da realidade). as operações são meio primárias, como princípio, mas ensejam desarranjos nos personagens muito úteis a quem lê, dentro e fora do blá blá blá baudrillariano; o sexo e a dominação são, em cronemberg, muito mais sujos, disparatados (no sentido goyesco do termo) e maneiristas que as pirotecnias intelectuais do francês – e além disso a cronemberg é possível construir um dos personagens, um doutor mabuse pós-moderno, como supra sumo maniqueísta representando o pior da dominação vazia, coisa que baudrillard talvez gostasse de sugerir, mas que não teve cara de pau.
3. o trabalho de crepax é mais simples e mais parabólico que o de cronemberg, apesar de ter final igualmente trágico. ambos, de qualquer forma, situam a experiência televisiva como território da obsessão que deforma e refunda as noções de realidade – o que, no caso de crepax, se dá pelo sexo, como mais uma vez não poderia deixar de ser. tal fato, contudo, diferencia anita do videodrome dominado pelos artefatos técnicos: ela goza, goza loucamente com a televisão; não perde em nenhum momento a dimensão corpórea, nem ela se deforma – como acontece com o protagonista do filme. a conquista do seu prazer tem várias instâncias, e embora culmine numa relação exclusiva com o aparelho televisivo, os degraus anteriores são escalas do corpo, e ela recusa, elege e hierarquiza a potência do prazer, nas suas várias voltagens, sempre em prol de mais. (talvez, em cronemberg, seja possível apontar nuances que aproximem o movimento do seu protagonista dos de anita, pois a entrega à obsessão pressupõe certamente prazer, em algum estágio, mesmo que remoto; mas seriam nuances: o diretor é bastante mais apocalíptico, sombrio e político que a personagem italiana, que só roça em questões de dominação e poder – embora seja sempre possível argumentar que a dominação sexual sugerida pelos quadrinhos é uma dimensão muito mais aterradora e inexorável do poder). com ou sem foucault relendo reich (provavelmente com, mas de forma muito leviana), anita trepa com o tédio, porque a outra opção, demonstra crepax, é arriscada, suja ou pobre demais – e nisso anita repete (ou antecipa) todos os esquemas socais da psicologia de botequim que questiona as “vidas virtuais” dos sujeitos (mas os repete abraçando-os positivamente). numa engenhosa representação das ratoeiras do prazer, o delicioso traço do sr. guido se mantém constante, relojoariamente regular, prendendo anita no tempo do seu gozo-videodrome, rápido, irresistível e explosivo.
gabriel bogossian
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